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6 razões para cuidar do Controle Interno da Qualidade

Controle Interno da Qualidade no Laboratório Clínico

Laboratório clínico — análise de amostras

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Conteúdo destinado a profissionais que estão iniciando os trabalhos de controle da qualidade. Geralmente incluem dicas e passo-a-passo para o aprendizado de conceitos básicos e fundamentais.

Intermediário

Conteúdo destinado a profissionais que já estão familiarizados com o controle da qualidade e têm experiência na execução do processo.

Avançado

Dirigido a profissionais mais experientes. Geralmente incluem conceitos pouco usuais e são indicados também para quem deseja lecionar sobre o assunto.

Prof. Silvio de A. Basques

Prof. Silvio de Almeida Basques é médico, com Residência e Pós-Graduação pela Universidade Federal de Minas Gerais. Recebeu Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Patologia Clínica. É Professor Aposentado do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da UFMG e Ex-Professor de Informática Médica da UFMG. Implantou o Sistema de Informática Laboratorial do Hospital dos Servidores do Estado de Minas Gerais (HGIP).

Criou e orienta sistemas de informática para o Controle Interno da Qualidade, além de Sistema para Auditoria Interna em Laboratórios. Apresenta o Programa Sábado às 11, para laboratórios. Criou e dirigiu o LABConsult – Tecnologia e Informação para Laboratórios Clínicos.

Prof Silvio de A. Basques
Introdução
Você pode às vezes se perguntar: Por que eu devo fazer o Controle da Qualidade, se vejo tantos profissionais que abreviam essa tarefa, simplificando-a e, às vezes, nem realizando-a? Eu tenho todo esse trabalho!

Já ouvimos indagação como esta, que felizmente foram poucas vezes, desde que trabalhamos com software para o CIQ. Nossa relação tem sido muito produtiva com mais de 1.000 laboratórios e três vezes mais de profissionais. Somos otimistas quanto à preocupação de milhares de profissionais com a qualidade dos seus resultados. Mas, como cidadãos e como profissionais da saúde, acreditamos que devemos refletir sobre as dúvidas de alguns e sobre o que foi publicado pelo Jornal Folha de São Paulo em 26.03.2012, quando divulgou que apenas metade dos laboratórios brasileiros realiza o controle da qualidade.

Há profissionais que “acreditam” estarem fazendo o Controle da Qualidade, quando de fato trabalham de forma equivocada. Usam apenas “correr o controle e comparar com uma faixa”, ou realizar comparações com valores de bula.

Modestamente endereçamos as reflexões que fazemos neste artigo para a outra metade, a que não realiza o controle da qualidade. Gostaríamos de poder debater esse assunto, criando substrato de aprendizado para as novas gerações, para os estudantes de graduação em ciências da vida, que estarão envolvidos de alguma forma com a atividade diagnóstica, na sua futura atividade profissional.

Para os iniciantes pode parecer a princípio que cuidar da qualidade significa muito esforço e que por ser a qualidade algo abstrato, talvez pudesse ser dispensada, ou praticada por meios mais empíricos e menos “dispendiosos”. Alguns acreditam que cuidar do controle pode ser uma coisa simples, parcial, com meias medidas e meios controles. Querem sempre fazer algo mais simples.

Nós defendemos que o Controle da Qualidade é coisa séria e deve ser encarado da forma correta e com eficácia. Fazer apenas por fazer é perda de tempo. Fazer de forma incorreta é perda de tempo e de dinheiro e significa desrespeito para com o cliente.

Já está bastante debatido que em grande parte das análises em um laboratório a qualidade é quantificável e investir esforços inteligentes nesse aspecto é inerente à prática diária. É imprescindível cuidar da qualidade dos resultados e considerar que a grandeza do papel de cada profissional na sociedade torna insignificantes os esforços para se obtê-la e para dar a mais honesta e valiosa contribuição para a excelência dos diagnósticos e condutas médicas.

A qualidade não ocorre por acaso. Ela é resultado de um esforço inteligente.
— Ruskin
Por que e para que fazer o Controle da Qualidade?

Essa pergunta pode ter dois enfoques:

  1. O que nos impele, o que nos induz ou nos obriga a realizar o CIQ?
  2. Quais os benefícios e vantagens para mim e meu laboratório quando implanto e realizo de fato o CIQ?

Listamos os itens mais significativos para estabelecer as bases racionais porque o profissional da área de laboratório clínico deve se engajar de forma intensa em atividades pela qualidade do fruto do seu trabalho.

1. Profissionalismo
Profissionalismo

Quem atua em laboratórios clínicos é um profissional muito diferenciado e é um provedor de informação. Sua formação o fez assim. Seu papel principal é usar a informação especializada, atender o cliente e obter amostras adequadas, analisar com boas metodologias os materiais biológicos e entregar informação de qualidade.

Em nossa experiência de professor universitário, ressaltamos sempre o impacto diferenciador do período de faculdade na formação dos profissionais. Discutia-se o aspecto da diferenciação do indivíduo que assume se graduar, desenvolvendo as características do profissional que almeja ser. Nesse período em que se capacita, ele assume nítida posição assimétrica na formação do conhecimento em relação aos demais membros da sociedade: ele passa a deter informação e conhecimento de sua área, elementos fundamentais para a atividade futura.

O também cidadão vai se tornar um PROFISSIONAL daquela área.

No segmento da saúde os profissionais se esforçam muito para aprimorar o recebimento e a busca de informações contextualizadas. Com esse conhecimento, que reforça a diferença e assimetria para com demais membros da sociedade, ele se valoriza como o cidadão dedicado ao trabalho bastante especializado e com a responsabilidade de realizá-lo da melhor forma possível. É o profissional em quem a sociedade confiará, porque ele se preparou para isso.

O profissional de laboratório constrói a informação a partir de dados brutos, obtidos de metodologias de análises que cuida de manter estáveis e com desempenho reconhecido. O bom desenvolvimento desses processos é que garante a qualidade dos seus resultados e do seu trabalho.

A sequência DICE da informação

D

Dado

É o elemento primário no processo de formação do conhecimento — geralmente um número. É desprovido de referencial explicativo. No laboratório clínico, o dado pode ser o resultado de uma análise.

Exemplo: 136

I

Informação

É o dado contextualizado. Possui um referencial explicativo que permite interpretação e tomada de decisão por quem tem formação para tal.

Exemplo: Glicose (soro): 136 mg/dl
(Valores de referência: 60–99 mg/dl)

C

Conhecimento

O médico avalia o resultado junto aos sinais clínicos do paciente. Se o resultado for superior a 126 mg/dl em dois exames, firmará o diagnóstico de diabetes e estabelecerá condutas terapêuticas.

E

Experiência

O profissional do laboratório deve assegurar, por meio do seu sistema de Gestão da Qualidade, que o resultado é o mais próximo da realidade do paciente, considerada a variabilidade iner ente aos sistemas analíticos.

Observem que o dado anteriormente apresentado faz parte da informação, ganhou contexto no laudo, de tal forma que permite interpretação e tomada de decisão. Mas, adverte-se que isso deve ser feito por parte de quem tem formação para tal. Diferentes pessoas farão diferentes leituras dessa informação:

O profissional do laboratório considerará que o resultado representa uma anormalidade para o paciente, porque sabe que a amostra foi colhida em condições de jejum definido, foi processada adequadamente, analisada em um sistema estável e sob controle interno e que até ao final, no resultado impresso, não houve erro. Ele deve ser capaz de assegurar, por meio do seu sistema de Gestão da Qualidade, que o resultado é o mais próximo da realidade do paciente, considerada a variabilidade inerente aos sistemas analíticos. Isso é o que esperam dele, paciente e médico assistente.

O paciente que receber esse laudo vai de imediato classificar seu resultado como alterado, baseado na informação fornecida pelo laboratório. Em conversas com pessoas concluirá que “está diabético”. Vale a observação prudentemente acrescentada na maioria dos resultados: “Somente o seu médico tem condições de avaliar esse resultado de forma adequada.”

O médico solicitante avaliará o resultado e, pelos conhecimentos que possui dos sintomas e sinais do paciente, dos critérios da Organização Mundial da Saúde e de outros contextos, tratará com zelo profissional essa informação. Deverá solicitar novo exame e, se o resultado for também superior a 126 mg/dl, firmará o diagnóstico de diabetes, ampliando o diagnóstico com base na sua Experiência Profissional para estabelecer condutas propedeutícas, terapêuticas e educativas.

A melhor atitude do profissional de laboratório o obriga a assegurar a qualidade da informação que entrega e assim contribuir para a excelência da prática do médico.

2. Avanços Tecnológicos Favoráveis
Avanços Tecnológicos

O profissional de laboratório é privilegiado por poder contar com instrumentos de aferição validados estatisticamente, apoiados pela estatística e pelos computadores, tendo como objetivo assegurar a qualidade do seu trabalho.

Em 1998, a partir de sugestão do Dr. José Carlos Basques, surgiu o primeiro software brasileiro de Controle Estatístico dos Processos Analíticos para o Controle Interno da Qualidade, incorporando o gráfico de Levey-Jennings, as Regras Múltiplas de Westgard e o cálculo do Coeficiente de Variação.

É preciso pensar a qualidade em termos quantitativos. Deve-se usar o método de controle correto e validado, ou haverá apenas a crença que se está fazendo o CIQ, não o real.

3. Gerenciamento do Laboratório

A prática do controle interno possibilita um aprofundamento no conhecimento da técnica analítica e constatação do desempenho de equipamentos, reagentes, calibradores e operadores.

É possível detectar, por meio de indicadores quantitativos, as necessidades de calibrações, manutenções e substituição de sistemas analíticos. Tudo isso respaldado por números que darão suporte aos seus argumentos com superiores e fornecedores.

O CIQ pode ajudar a constatar vantagens e desvantagens da substituição de reagentes, nas evidências sobre o que é fundamental: a qualidade dos seus resultados.

O que não pode ser medido, não pode ser gerenciado.
— Peter Drucker
4. Ética
Ética

Incluímos esse quesito porque entendemos que uma prática ética é componente insepáravel do trabalho do profissional e lhe confere engrandecimento. A ética requer estudos filosóficos aprofundados, debates e compreensões sobre a atuação responsável e profissional, mas é também, no nosso modesto entendimento, um respeito ao próximo, ao outro e a nós mesmos.

Atuar de forma ética é estabelecer critérios, processos e atitudes que representem o mais elevado sentido daquilo que nos propomos fazer — do melhor que podemos fazer, do melhor que esperam que façamos. Dedicar-se a realizar o controle da qualidade dos exames é um dos grandes compromissos éticos no nosso tempo.

5. Acreditação do Laboratório

Segundo a norma ABNT NBR ISO/IEC 17011:2005, acreditação é o reconhecimento formal por um organismo independente especializado de que uma instituição atende a requisitos previamente definidos e demonstra ser competente para realizar suas atividades com segurança. As acreditações na área da saúde certificam as instituições que demonstram possuir ações e processos que priorizam a segurança e qualidade no atendimento ao paciente baseados nas melhores práticas internacionais vigentes.

Segundo os Requisitos Gerais para Organismos de Acreditação, a definição de acreditação é “atestação de terceira-parte relacionada a um organismo de avaliação da conformidade, comunicando a demonstração formal da sua competência para realizar tarefas específicas de avaliação da conformidade.” (Fonte: Wikipedia)

A mais antiga e respeitada acreditadora em saúde é a Joint Commission International (JCI), representada no Brasil pelo CBA. O Brasil tem a Organização Nacional de Acreditação (ONA). Na área laboratorial há dois programas: PALC, conduzido pela Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial, e o DICQ Sistema Nacional de Acreditação, da Sociedade Brasileira de Análises Clínicas. A adesão é voluntária, o que em todo o mundo é uma forte característica dos programas de acreditação.

Saber-se reconhecido por terceiras partes é fator de satisfação profissional. Investir na busca da acreditação é uma forte razão para cuidar da qualidade.

Hoje a palavra acreditação entrou definitivamente para a agenda nacional, e temos todas as evidências de que o reconhecimento de um prestador se fará na medida de sua qualificação.
— Luisane Vieira
Conformidade Legal

O instrumento normativo mais importante é o Regulamento Técnico para Funcionamento de Laboratórios Clínicos, aprovado pela ANVISA-MS — RDC 302/2005. É com base nesse documento que os agentes sanitários municipais e estaduais aferem se o laboratório possui as condições mínimas para seu funcionamento.

Diferentemente do processo de acreditação, aqui a participação não é voluntária e a autoridade sanitária pode punir com severidade o laboratório que descumpra as normas.

O atendimento à conformidade legal é, além de obrigatório, fator positivo para o ganho da qualidade e para o cumprimento da responsabilidade social do laboratório.

Benefícios e vantagens do CIQ
  • Contribui para assegurar qualidade ao serviço que você presta, resultando em benefício para os pacientes e reconhecimento do seu trabalho.
  • Auxilia a gerenciar o desempenho dos sistemas analíticos, recolhendo elementos indicadores para aprovar ou contestar equipamentos e reagentes.
  • É fator importante para aumentar sua segurança e tranquilidade na realização do trabalho profissional de contribuição diagnóstica.
  • Desenvolve a cultura da qualidade entre seus colaboradores, propiciando compreensão dos processos de análises e desenvolvendo linguagem clara e uniforme.
  • Dá respaldo para ter convicção em assegurar aos clínicos o valor do resultado do teste que você entrega, quando surgirem questionamentos.
  • Pode acrescentar respaldo legal para sua defesa em casos de questionamentos judiciais.
  • Contribui para sua boa participação nos programas de acreditação e na relação com agentes da Vigilância Sanitária.
  • É importante para continuar competindo no mercado.
Conclusão e Recursos Adicionais

Há um notável movimento pela qualidade no setor saúde e o que se espera é que cada profissional puxe para si a responsabilidade de aplicar as melhores práticas para obtenção dos seus resultados. As Especificações da Qualidade devem ser tratadas pelos profissionais de laboratório de modo a aumentar o gerenciamento da qualidade.

Devem-se buscar mais e melhores recursos para que os esforços empregados se traduzam em melhorias estruturadoras e duradouras para a plenitude do trabalho na área diagnóstica em saúde.

Qualidade não é um ato, é um hábito.
— Aristóteles

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Publicado em julho de 2012

Bibliografia

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